terça-feira, junho 23, 2015

E depois?

Quase todos os dias me pergunto porque minha vó e minha mãe nasceram com essa doença. Nunca foi fácil pra mim vê-las sempre assim, quase não tenho lembranças da minha mãe sem a doença. Minha avó materna, tadinha, sofreu muito, mesmo assim, ainda acho que ela era mais forte que minha mãe. Ela faz tanta falta na minha vida, a vovó era a única pessoa que fazia eu me sentir completamente amada, do jeitinho que eu era. Ver ela três meses internada em uma UTI, morrendo um pouquinho dia após dia, fez de mim uma pessoa mais fria, mais seca, até o ultimo momento eu acreditava que ela se recuperaria e aquela seria só mais uma internação de tantas. Não foi. Dói até hoje, nunca vai passar. Ver minha mãe assim faz com que tudo aquilo volte, eu era uma menina de 17 anos que ia quase todos os dias visitar a vó na UTI do Hospital Dom Pedro. Mesmo acreditando que ela pudesse ficar boa, chorei de alívio quando recebi a notícia de sua morte, eu não aguentava mais ver ela sofrendo, ver ela do jeito que vi, na última visita eu só chorava, vovó mexia a boca e dizia pra eu não chorar, não saia voz pois ela tinha feito uma traqueostomia. Eu não conseguia não chorar. 
Agora é minha mãe, minha mãe sempre foi um pouco distante, não era como a vovó, era dura, não se emocionava, não demonstrava muito amor. Quando fui crescendo, ela foi se abrindo mais para mim, mesmo assim nunca tivemos um relacionamento ótimo. Sempre sobrou pra mim a parte de ser dura com ela, de trazê-la de volta a realidade, de tirá-la do mundo de perseguições e de ciúmes em que vivia, eu sempre me senti mais mãe dela do que filha. Agora ela precisa ainda mais de mim e eu não entendo porque as duas tinham que ter essa doença, eu não entendo porque tanto sofrimento. Eu não sei lidar tão bem com minha mãe, eu não sei o que fazer, digo palavras de força, tento ser paciente, tento dar alegrias, ir ao hospital das clinicas com ela é lembrar de quando eu era criança e ela levava minha vó e me levava porque eu era maior e podia ajudar as duas e agora eu ali e tanta dor, tanta doença, tanta sofrimento. Não consigo entender. Parece que vou ficar louca. 

terça-feira, maio 19, 2015

Uma pisada

Acho que todo mundo tem aquele momento em que uma "virada" é pedida. Não dá para viver sem isso, não dá para pensar em uma vida conformada, esperando que algo aconteça. A gente luta, luta, luta e quando vê não sai do lugar. Eu não quero viver pensando em dar aulas, dar aulas para mim tornou-se um martírio, não quero a rotina de pensar provas, de corrigir provas, de avaliar, etc. Quero viver, o meu viver é muito distante do "viver" dentro da escola, quando eu não acredito mais no que faço, começo a sofrer. Eu posso ser qualquer coisa, desde que eu acredite que seja. A rotina, a mesmice, o sistema escolar está me sufocando. O que eu procuro é tão maior que não cabe mais nessa realidade e aí que eu não sei mais o que fazer. Me sinto pequena na sala de aula, me sinto pequena na escola, eu sou tão maior do que isso, de como me sinto. Tenho tanta coisa dentro de mim, tantos sonhos, tantas realidades e ali eu sou tão pequena que poderia ser "pisada" por um sapato qualquer.

terça-feira, maio 05, 2015

Eu

Busquei em todas as folhas o seu nome, não encontrei. Olhei de novo. Calmamente e sem distrações, não encontrei. Pulei a folha, fechei o livro, desisti. Você não estava ali, nem ali e nem em lugar nenhum. Você não existe, nunca existiu. Eu com minha imaginação fértil te criei. Fiz cada detalhe de você e do seu corpo, suas palavras fui eu quem soprei, seu corte de cabelo, suas roupas, foi tudo eu.
Desacreditei quando vi os sinais, não era possível, justo eu que sempre fui tão esperta, tinha esquecido de esquecer. Fui seguindo, seguindo, sem olhar pra trás e quando vi, cadê você? Era eu. Eu com todos os meus mínimos defeitos, com todos os meus fios de cabelos de brancos, com todas as minhas pintas de sol. Era inteirinha eu. Fechei os olhos, olhei de novo: era eu. Passei a mão no espelho: era eu. Abri a boca, arregalei os olhos e era eu. Não tinha dúvidas, tudo era o tempo todo eu. 



segunda-feira, abril 06, 2015

Um livro de crônicas mal escritas

"Um dia quando eu era pequena quis escrever um livro, sempre fui eu, só que menor e com muitos, muitos defeitos, tenho me aberto para rever algumas coisas que gostaria de modificar em mim, de melhorar, mesmo assim, na essência, sempre fui eu. Lembro de um caderno amarelo de brochura, capa dura, ali eu desenhava, fazia algumas histórias em quadrinhos, arrancava as folhas que achava feias e imaginava que seria escritora, daquelas que escrevem livros e desenham também. Desistia, via que era péssima, não era caprichosa, as folhas eram todas marcadas, a borracha não apagava direito e eu sofria com minha falta de jeito. A minha vida parece um lençol feito de retalhos, tudo com uma ligação, com um fim, com pequenos encaixes e harmonia, como acreditar que isso seria possível fora dos livros? impossível. Um livro de crônicas mal escritas. Pensar em Paris e de repente um dia estar em Paris, não querer ser Professora e no outro dia sendo Professora da matéria que você mais amava na escola. Querendo ser luz e ser alimentada de trevas e no outro dia iluminando os seus sonhos e vivendo da luta de realizá-los."


"Uma menina de cabelo cinza e pássaros que a levam pra longe.
A realidade muitas vezes é dura demais para quem tem o coração tão azul."

quinta-feira, março 12, 2015

Sem nada

"Me arranquei de algumas pessoas, busquei em todos os lugares maneiras de não me arrancar, vi que isso só seria possível se eu não fosse eu, fosse outra pessoa. Me escolhi. Não consigo lutar para ser outra pessoa, assim para agradar, eu luto pelo meu melhor, sem pensar se vou agradar, se não vou - sai em busca dos meus sonhos, aqueles que guardei no pote de margarina."

Disse ela, cansada de tantos ardores, suores e falsos amores.

"Eu não tenho nada, sem nada eu sou livre e livre, feliz."