quinta-feira, março 17, 2016

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Meu pai vendeu a casa do Ipê. Como eu me senti e como me sinto? Desde que tenho uns 15 anos queria mudar de lá, sempre muito longe, sempre com esperanças de demorar menos pra chegar em casa, de não ter tanto medo de sair e de voltar. Minhas avós se foram, meu avô, meu pai nunca quis vender, falava ás vezes em ir pra Mogi, pra Bahia, pra Penha, mas sempre em um futuro tão distante que a esperança de sair de lá foi acabando e se eu quisesse sair, teria que ser sozinha ou casada. Sai de lá para Dublin, quando voltei, avisei meu pai de que não voltaria pra lá, não por eles, por causa do espaço, por causa do lugar, porque precisava de um lugar com espaço pra minha solidão, eu preciso disso. Voltei.Casei. E aqui estou. Morando perto deles mas em um lugar que consigo ás vezes ficar quieta, sem ouvir, sem falar, só.
Hoje me sinto feliz e triste, queria ter saído há mais tempo de lá, ao mesmo tempo vivi minha vida toda ali, com meus pais, meus irmãos, meus bichinhos. Lá ficaram todos eles. O Frank e o Nene não. Sei que meu pai não teve escolha, teve que sair, aconteceu tanta coisa ruim, descobrimos tantas coisas que talvez fosse melhor não ter descoberto nunca, dói  e até hoje me sinto traída, enganada, enfim... mundo real, não o mundo idealizado e ingênuo que construí a vida inteira em minha cabeça. De uns cinco anos pra cá a vida tem me apresentado a vida como ela é. Eu continuo ingênua e sem acreditar no que é apresentado e continuo com vontade de ir embora e ter o mínimo de relações possíveis para me machucar menos com as atitudes das pessoas. A casa foi vendida. Não sei quando terei coragem de pegar o carro e passar por ali de novo e ver o que aconteceu com o lugar em que vivi minha vida toda. Espero que quem comprou faça bom uso e transforme em um lugar bonito, cheio de luz e coisas lindas. A vida é cheia de mudanças, cheia de rodeios, de nuances. Infelizmente as lembranças mais vivas não são muito boas, mas passamos bons momentos ali, principalmente quando éramos só nós...

sexta-feira, março 11, 2016

O Vazio

Eu guardo dias, tem algumas datas que nunca esqueço, não tenho elas anotadas (terei agora) e mesmo assim eu nunca esqueço, tudo começou com o dia 14 de novembro de 1995, quando minha avó paterna se foi, depois foi dia 01 de janeiro de 1997, quando minha avó materna se foi, depois teve o dia 25 de janeiro de 2001, foi a vez do meu avô ir embora. Meu Frank nasceu em 24 de dezembro de 2002. Ficou com a gente, desde filhotinho foi especial. Em Janeiro de 2014 descobri que o Nene tinha um tumor na barriga, em janeiro o Dentes operou o rabo. Em 13 de junho de 2014 o meu Dentes se foi. No dia 08 de outubro de 2014 descobrimos que o Frank estava com linfoma e ele operou, fiz quimioterapia e estava bem, até outro caroço aparecer no mesmo lugar em maio de 2015, tirou novamente em junho e dai em diante até o dia 9 de março desse ano foi uma batalha contra esse maldito linfoma. Fran viveu 13 anos, 2 meses e 14 dias. Foi o melhor cachorro do mundo, eu dizia que ele era o melhor do mundo e em segundo lugar vinha o Dentes.
Nos últimos dias estava indo ver ele sempre, eu tinha medo que ele se fosse e eu não estivesse por perto, queria que eu e meu pai estivéssemos com ele. Era claro que o Frank amava mais o meu pai, mas eu vinha em segundo lugar isolado. rs Ele era meu meninão. Levamos ele na terça-feira, o inchaço do rosto tinha melhorado, ele conseguia andar devagarzinho, tinha uma cachorrinha bb e peguei no colo pra ver como ele reagiria, rs ele levantou e sentiu ciúmes, logo eu devolvi ela pra dona e fiquei com ele, disse que ele era o meu bbzinho, ele tomou as injeções e ficou de voltar em uma semana, não vi ele na quarta, fui lá ver ele na quinta, pulei sexta e sábado, no sábado bem tarde meu pai me mandou um recado dizendo que ele tava muito mal, que era pra eu ir correndo, eu não fui pois já era mais de meia-noite, então no domingo bem cedinho eu fui. Passei quase o dia todo com meu bichinho, ele comeu, abanou o rabinho pra mim, bebeu água e ficou muito tempo deitadinho perto de mim. Na segunda fui ver ele de novo, rapidinho dessa vez, na terça eu fui cedo e na chegada percebi que ele estava pior, sem luz. Peguei ele no colo e coloquei ele dentro de casa, fiquei muito tempo conversando, tentando fazer ele se animar, mas os tumores estavam imensos, ele estava inquieto, não conseguia dormir, não conseguia levantar, gemia baixinho com dor, meu pai chegou e foi no veterinário buscar injeção para dor, ele chegou, aplicou e eu esperei um pouco pra ver se ele ficava mais sereno, fui embora e deixei ele melhor. Liguei a tarde, ele não tinha comido, não tinha ido ao banheiro, mas eu sempre acreditando que ele ia conseguir, que ele ia comer, que ia reagir. 23 horas meu pai me manda um recado dizendo que ele tava gritando e parecia agonizar, pegamos o carro (Paulo e eu) e fomos pra lá. Papai foi abrir o portão e eu já ouvi o chorinho do Frank, de cortar o coração, entrei, ele me viu e a respiração ficou mais rápida, papai disse que tinha dito pra ele ir, que não queria ele sofrendo tanto... acalmamos ele, o tempo todo com as mãos na cabecinha, segurando as patinhas dele, eu queria que ele soubesse que nós dois estávamos ali, com ele, rezei, pedi que São Francisco poupasse o sofrimento do meu filhinho. Ele parecia querer dormir, fechava os olhinhos e abria, com dor, ás vezes parecia não estar ali, ás vezes olhava pra gente com o mesmo amor de sempre e fechava os olhos como se fosse dormir, deu uma arqueada, meu pai segurou a cabecinha dele, ele começou a ter uma respiração mais calma, foi acalmando, acalmando, até que ele levantou de leve a cabecinha e nos olhou como os olhos de Frank, olhos de amor e parou de respirar. Dormiu. Ficou o vazio, o silêncio, nenhum barulho, nada. Nós dois ali com ele, mamãe e o Paulo estavam mais afastados. Eu levantei e sai, como se eu pudesse me desligar daquilo que tinha acontecido, voltei e era a constatação de que ele não estava mais ali. Só o corpinho frágil depois de tanta luta, coberto e ele parecia dormir. Eu queria sumir. Sabia que tinha que estar ali com ele, com meu pai. Mas eu não queria que tivesse tido tanto sofrimento do meu bichinho. Passei mal, uma náusea, uma dor no estômago, um soco no meu estômago, queria vomitar, tirar de dentro de mim toda a tristeza, toda a vida,  queria ter mais tempo pra dar pra ele ser feliz com a gente. E o dia 9 de março ficou marcado como o dia do adeus do meu Frank. Agora é pensar que demos o melhor pra ele, ele foi muito amado, foi muito cuidado, agradeço ao Dr. Paulo Kitakata, a sua esposa Nanci Kitakata, que cuidaram de meu Frank de verdade. Peço que agora ele esteja bem e de onde estiver, ajude eu e principalmente ao meu pai e pai dele também,  a digerir e superar essa enorme perda, pintei ele no primeiro dia do ano. Toda hora olho ele sorrindo em minha parede cinza e penso: - eu tive o melhor cachorro do mundo, um cachorro que parecia de filme, que falava comigo com os olhos, o mais amoroso, mais educado, mais tudo. Eu sou uma sortuda de ter tido essa dádiva por quase 14 anos.





terça-feira, fevereiro 02, 2016

Não!

Cada não que eu recebo me deixa mais forte. Se eu tenho dentro de mim um objetivo de vida, se eu nunca tive muitas dúvidas sobre o motivo que me fez nascer, não devo ter medo de receber nãos. Já foram inúmeros e muitos outros virão e eu vou sempre dizer: Sim vou continuar tentando, sim, vou continuar lutando!

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Exposição Livraria Cultura

Há 3 anos atrás fiquei sabendo que poderia ter uma exposição na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. Tinha tanta coisa pra acontecer nesses anos, tinha a Copa do Mundo, eu tinha acabado de voltar ao Brasil e estava cheia de expectativas, cheia de saudades, sonhos, etc. Passaram-se 3 anos e muita coisa mudou, me conheço mais, me casei no papel com o Paulo (já era casada no coração), meu Dentes se foi, meu Nenen perdeu um olhinho, peguei a Lolla, Frank ficou doente, comecei a dar aula em outra escola, minha mãe ficou mais doente, um monte de gente que eu não esperava parou de falar comigo porque tive atitudes que eram diferentes do que esperavam de mim, fui julgada, condenada por pessoas que eu verdadeiramente amava, aprendi que as pessoas nunca vão estar felizes com quem você é de verdade porque elas não se preocupam com você, se preocupam só com suas próprias visões e julgam, julgam muito. Aprendi que por mais que você faça, sempre vão querer que você dê mais amostras de amor e que do amor não se pode cobrar provas, ele é, ele existe e assim é livre. Pedi desculpas sem ter errado, por amor. Me calei, sumi, trabalhei dia após dia minha tolerância, minha paciência, minha capacidade de perdoar, senti inveja, me puni, tive vergonha, sumi de novo, fui vítima de fofocas, me senti em uma novela das 8, nunca imaginei que tudo isso fosse acontecer comigo, sempre fui quieta, sempre tive poucos amigos, no momento, meus amigos são "mais poucos ainda"... rs Com o passar do tempo, tenho visto que posso contar com pouquíssimas pessoas, não me sinto sozinha por isso, talvez um pouco triste, mas acho que não nasci pra ser popular, já estou habituada desde muito nova a essa sensação. Essa exposição fecha um ciclo, estou agora numa fase de transição, de gestação para novos trabalhos, sinto dentro de mim uma vontade de continuar, mas um medo de iniciar algo novo, faz parte, sei que é assim e que preciso desse tempo.

Abaixo o link para um vídeo de divulgação da Galeria Cultura e alguns trabalhos que estão na exposição que fica até 30 de dezembro na Galeria Cultura (Livraria Cultura do Shopping Iguatemi)

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quarta-feira, novembro 18, 2015

O dia em nasci

Um dia parei pra pensar sobre o dia em que nasci. Podia dizer que nasci quando sai da barriga da minha mãe ou quando quase morri com alguns dias de vida por causa de intolerância ao leite materno. Pra mim o dia em que nasci foi quando tomei consciência de que eu era alguém e não somente um corpinho obediente de criança, foi quando eu percebi que eu era capaz de pensar e seguir os meus pensamentos e ter minhas próprias ideias, isso por volta dos 8 anos. Nunca fui de falar, nunca fui de reclamar, nunca fui de querer as coisas, eu era e o ser já era o bastante para mim. Eu nascia todos os dias um pouquinho. Eu nasci um dia quando minha vó Nininha ficou doente e foi internada, eu nasci quando meu pai operou da hérnia e eu não podia vê-lo e chorava como se não houvesse amanhã por causa disso, eu nasci quando minha mãe tinha crises renais e gemia de dor no quarto, eu nasci quando me contaram que eu teria um irmão, eu nasci quando minha vó foi pra Minas visitar os parentes e eu não entendia porque ela tinha me deixado, eu nasci quando eu descobri o que eram gatos e também foi essa a primeira vez que me apaixonei e continuo até hoje apaixonada, eu nasci quando recebi a notícia de que minha vó tinha morrido, depois nasci de novo quando minha outra vó morreu, eu nasci quando meu irmão se envolveu com drogas e deixou devastada a nossa família, eu nasci quando meu gato Vinícius sumiu, quando meu Dentes morreu, quando roubaram meu carro prata, quando eu levei o maior fora de todos os tempos, quando fui mandada embora, quando fui morar na Irlanda, quando voltei pro Brasil, eu nasci quando reencontrei o Paulo depois de tantos anos e ele sorria enquanto andava de patins. Eu nasço toda vez que termino um desenho, um quadro, quando dou minhas aulas e vejo admiração em alguns olhinhos. Eu nasço toda vez que olho pra minha Lolla, pro meu Nenem e pro meu Frank. O tempo todo estou nascendo e vivendo como se cada dia fosse o último dia e o primeiro.