segunda-feira, maio 29, 2017

A coisa quando não vem...

Faz um tempo que não escrevo aqui. Sinto vontade de escrever mas os dias acabam e eu me acabo. Deixo de fazer um monte de coisas que gostaria de fazer pra fazer as coisas que eu TENHO que fazer. Há um pouco mais de um mês fiz o meu último desenho, desde então tenho me debatido dentro de mim sem conseguir a glória da criação. Fiz o projeto de pintura para um bar, não deu certo e o projeto de pintura de uma biblioteca infantil (aprovado - falta começar), mesmo assim, a criação foi travada, sem alma, sem querer. Uma obrigação pungente. É como se eu tivesse em mim uma "crosta", algo grande me impedindo de criar e essa crosta só pode ser eu mesma, a que não consegue ver beleza nas coisas que anda vendo. Sinto falta de tanta coisa que me perco na saudade. Me sinto muitas vezes uma incompetente de não conseguir realizar as coisas que preciso realizar. As coisas estão truncadas. Eu estou truncada. Não existe nada de lindo no processo de criação. Ele é uma força da natureza, como se cria com as coisas como estão? sinto falta das tulipas, sinto falta da paz e da calma, sinto falta de sentir saudades e daquela liberdade de ser eu, acima de tudo. De andar sozinha pelas ruas, de ter um pouquinho de medo por estar sozinha e longe. Sinto falta da expectativa, da falta de planejamento, da descoberta de lugares novos, da falta de domínio do inglês. Do silêncio cheio de som. Tenho tanta coisa presa dentro de mim e não sei como tirar isso daqui.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

2016 se vai.

2016 foi um ano cheio de altos e baixos. Não fui tantas vezes no Hospital das Clínicas, mesmo assim o olho da minha mãe não melhorou de vez, ela continua fraca devido a sua doença e eu continuo como posso, ajudando. Tem também a minha vida, foi um ano onde trabalhei bastante com a minha arte, fiz muitas encomendas, muitas vendas, teve o concurso do prato Spoleto, as aulas extras de arte.
Perdi meu Frank em março, no dia 09 de março. Perdi meu Neném no dia 25 de julho. 
Sempre com medo de perder mais. Em novembro de forma precoce perdi minha coordenadora, que pra mim era mais do que uma coordenadora, era alguém que eu admirava, alguém doce, cheia de vida, que de forma violenta foi tirada das nossas vidas e da vida de sua família. Dói pensar e ainda não acredito. Ontem recebi a notícia de que minha Nuala se foi. Minha querida host family na Irlanda. Esse ano não mandei a cartinha e o cartão de Natal pra ela. Tive encomendas até ontem e antes de saber ainda comentei que em janeiro mandaria a cartinha pra ela e para a Deabhla. Cheguei em casa e recebi a mensagem de que ela tinha partido, em paz, durante a manhã de ontem. Uma notícia horrível de se receber. Tão sábia, me ajudou tanto, era como se eu tive reencontrado um pouco das minhas avós nela. Lembro do que ela me falava sobre relacionamentos, sobre white lies (rs), lembro dela me chamando pra ver uma reportagem sobre a Amy Winehouse, ou quando veio o visitante, um gatinho que as vezes aparecia no quintal e como ela sabia que eu gostava de animais, ela me chamava pra ver. Lembro do medo que senti ao chegar naquela casa estranha e depois o medo que foi embora e eu que não queria nunca ter ido embora. Dela indo no banco me ajudar quando fui roubada ou me ajudando a arrumar trabalho no brechó. A melhor comida do mundo! Nuala tinha sido dona de um restaurante e foi casada com um Italiano, eu dizia que a comida Irish dela era a melhor do mundo e que eu tinha sorte. :) Pedi pra cair em uma casa que tivesse pets. Ela tinha o Bobby e o coelho. Ficou feliz quando contei que optei por uma casa com pets, Já sentia muitas saudades dela, tinha esperança de ir visitá-la, todos os anos ela dizia pra eu ir, nunca consegui com o preço do euro, com tanto trabalho, agora a tristeza é saber que ela não está mais lá. Mesmo assim me acho uma pessoa de sorte de ter tido a oportunidade de conviver com ela e de tantas vezes com o meu inglês torto ter conseguido entender e e fazer entendida por ela. 
Te amo Nuala. My Irish Gramma. Termino 2016 assim. Não tenho mais o que falar. Torço pra que 2017 não leve tantos tesouros meus, que me traga luz e força pra enfrentar a maturidade que tenho conquistado com os anos.
As coisas são como devem ser. Vou lutar sempre pelo o que eu acredito. 
Agradeço pela presença do meu marido, companheiro e amigo na minha vida, tem sempre me feito uma pessoa melhor, tenho aprendido muito com ele, agradeço meus pais, que do jeito deles estão sempre por perto e meus poucos e verdadeiros amigos, que sei que são luz em minha vida. 
Até 2017. 

segunda-feira, setembro 05, 2016

Mulher

Quando você nasce mulher você não pensa: - Isso eu posso ou isso não posso porque sou mulher. Você simplesmente é. Nasce sem rótulos, sem julgamentos. Tenho um pai que nunca me disse o que eu podia ou não fazer por causa do meu sexo. Sempre fui filha, independente de qualquer coisa. Nos últimos tempos tenho estado atenta e percebido algumas coisas, essas semanas que passaram com a pintura da loja, um rapaz entrou e nos parabenizou pela pintura, o Paulo logo disse que a pintura era minha, que ele tinha ajudado... o Rapaz sem graça, ficou surpreso e falou: - É mesmo!? Parabéns viu...
Aqui tem muito isso: - coisas de homens, coisas de mulheres.
Pintar é coisa de homem? as pessoas se surpreendem quando vêem uma mulher fazendo determinada coisa... Muito triste. Fiquei pensando em escrever como eu me sentia cada vez que isso acontecia, como é triste pensar que as pessoas não se policiam para que isso mude, porque? Fiquei pensando sobre o quanto o fato de eu ser mulher me dá força pra que querer mais ainda fazer as coisas darem certo, ou fazer as coisas bem feitas, mostrar que o meu sexo não vai me rotular, não vai me podar.
Quase a minha vida inteira fui rotulada por ser quieta, por ser "estranha", por ser tímida, por ser magra, por seu eu... ser mulher pra mim é uma dádiva, eu vejo nas que vieram antes de mim e lutaram por tantas coisas, e sofreram tanto, inspiração para fazer o "impossível", aquilo que só os homens podem fazer como sentar com a perna aberta sem se preocupar com o que estão achando...


Triste como a cada dia me sinto mais e mais estrangeira no país em que eu nasci.